Samba, Suor e Portunhol

Silas Veloso da Silva

Quando o enigmático Juan (Colômbia), a doce e mística Agus (Argentina), a centrada Poli (Chile) e o atrapalhado Ricardo (Panamá) decidem passar o Carnaval no Rio de Janeiro, eles esperavam apenas sol e caipirinha. Mas a “Cidade Maravilhosa” preparou um roteiro muito mais intenso.

Hospedados em um casarão misterioso em Santa Teresa — onde os fantasmas só aparecem depois da terceira dose de cachaça —, o grupo mergulha em uma jornada de imersão cultural e autodescoberta. Enquanto Ricardo tenta manter sua autoestima viva entre um mico e outro, Poli usa sua fluência para guiar o grupo, sem imaginar que o Brasil despertaria nela sentimentos totalmente novos.

Entre as ladeiras da Lapa, onde Juan se emociona com a poesia das ruas e tenta se libertar de um passado tóxico, e as águas cristalinas de Angra dos Reis, onde o clima entre ele e Agus finalmente esquenta, os quatro amigos enfrentam de tudo: de assaltos inesperados a encontros mágicos com professores nordestinos e brigas épicas por causa de feijoada.

“Samba, Suor e Portunhol” é mais do que uma viagem; é um mergulho nas gírias, nos sabores e no caos irresistível do Brasil. Uma história sobre perder o passaporte, mas acabar encontrando a si mesmo.

Capítulo 1:

Capítulo 1:

Assim que as portas do aeroporto se abriram, o bafo quente nos atingiu como um tapa. Eu olhei para os meus três amigos e soube: a aventura tinha começado.

Táxi, moço? Táxi, gringo? — uma multidão de motoristas nos cercava.

Ricardo, o nosso panamenho que parece ter uma mola no corpo de tão animado, já ia aceitando o primeiro que apareceu. Poli, com seu português afiado, o puxou pelo braço.

— Escuta aqui, Ricardo! Eu já te disse que no Rio você tem que andar ligado, viu? — Ligado? — Ricardo piscou, confuso. — Tipo uma lâmpada? — Não, bobão! — Poli riu. — Ligado é ficar atento, esperto, cachai?

O trânsito na Linha Vermelha estava completamente parado, um mar de metal refletindo o sol impiedoso do meio-dia. Foi quando ele surgiu, deslizando entre os para-choques com uma agilidade sobrenatural.

Era um menino sem camisa, a pele tão queimada de sol que parecia brilhar. O que nos deixou paralisados, no entanto, foi a sua fisionomia: ele tinha o tamanho de uma criança de sete anos, franzino e pequeno, mas quando abriu a boca para anunciar sua mercadoria, a voz que saiu era grave, rouca e cansada, como se pertencesse a um homem de vinte e cinco anos que já tivesse vivido três vidas.

Água gelada! Dez reais a pequena, vinte a grande! — gritou ele, equilibrando uma caixa de isopor pesada nos ombros como se fosse uma pluma.

O cabelo dele era uma visão à parte: metade era branco como algodão e estava salpicado de pequenas pintinhas vermelhas, que pareciam restos de tinta ou talvez algum amuleto místico que só ele entendia.

Augus, que tem esse dom de enxergar portais e magia onde o resto do mundo só vê uma materialidade superficial, ficou paralisada. Seus olhos brilhavam enquanto observava o equilíbrio quase circense do garoto entre os para-choques e o cansaço dos motoristas.

¡Qué increíble! — sussurrou ela, com a voz embargada por aquela admiração genuína que só ela tem. — Quanto é, mi amor?

O menino parou, apoiou o isopor no asfalto quente e encarou Agus com olhos atentos, como se estivesse avaliando muito mais do que apenas uma venda. Antes de responder, abriu um sorriso sacana, bem carioca — daqueles que misturam malícia, simpatia e rua. Um sorriso rápido, de quem já entendeu o jogo da cidade.
Pra você, que tem cara de anjo, é vinte conto, tia!

A voz saiu grossa, quase de homem feito, contrastando com o rosto ainda de criança. Foi um daqueles momentos estranhos em que a idade e a experiência parecem não bater. E, por um segundo, ficamos em silêncio, meio entre o riso e um leve estranhamento.

— Não, menina! Tá doida? — Juan interveio imediatamente, segurando o pulso de Agus com aquela elegância protetora de quem não aceita ser passado para trás.

Juan era um sujeito curioso. Calmo, mas de uma calma que não era exatamente tranquilidade. Como se dentro dele morasse um touro bravo, mantido o tempo todo sob rédea curta. Falava pouco, observava muito. Tinha aquele tipo de olhar que parecia estar sempre dois passos à frente da conversa, calculando as intenções das pessoas, medindo o ambiente. Um olhar de águia mesmo: atento, desconfiado, varrendo tudo ao redor antes de tomar qualquer decisão.

Juan encarou o menino-homem por alguns segundos antes de falar. Quando abriu a boca, dava para perceber que ele tinha engrossado a voz de propósito, como quem aumenta o peso das palavras para marcar território.

— Vinte reais por uma garrafa de água, meu jovem? Você está brincando com a nossa cara. O que tem nessa água? Ouro português escondido lá dentro? Isso é um assalto à mão armada!

A frase saiu alguns decibéis acima do tom habitual dele. E quando Juan falou em “ouro português”, todo mundo acabou rindo — aquela risada meio espontânea que quebra a tensão da cena. Até Agus soltou uma gargalhada curta, enquanto o menino tentava segurar o sorriso, sem saber se levava a bronca a sério ou se entrava na brincadeira.

O menino não se abalou nem um pouco. Olhou para Juan, deu aquela piscada rápida de quem já está acostumado com negociação de rua e soltou:

— Coé, gringo, tá me tirando?

Antes que alguém respondesse, ele já estava rindo. A gargalhada saiu rouca, espalhando-se pelo calor do asfalto. O garoto ajeitou o isopor no ombro com um movimento ágil e começou a se afastar, caminhando entre as pessoas como quem domina o território.

— Olha a água! Águuuuua geladinha! — gritou, arrastando o som das palavras enquanto seguia pela praia, ainda rindo da situação.

Ele voltou a correr entre os carros, sumindo na fumaça dos escapamentos antes que pudéssemos processar aquela figura tão estranha.

— Gente… que coisa mais bizarra — comentou Ricardo, tentando puxar as calças que insistiam em cair enquanto ele se ajeitava no banco. — O Rio de Janeiro já começou me dando um nó na cabeça.

No caminho para o hotel, o clima de “férias perfeitas” começou a ganhar contornos mais reais. Pela janela do carro, o Rio se revelava em contraste: ao longe, o Pão de Açúcar se erguia imponente contra o céu azul, quase como um cartão-postal vivo. Mas, nas calçadas, outra cidade aparecia — barracas improvisadas, colchões sobre papelões, gente tentando montar algum abrigo no meio do barulho do trânsito.

— É uma sensação estranha — sussurrou Agus, ajeitando o cristal pendurado no pescoço. — Eu esperava algo mais… organizado.

Mas, à medida que o carro deixava para trás as avenidas largas e começava a subir pelas ladeiras de Santa Teresa, a paisagem ia mudando com uma calma quase inesperada. As ruas ficavam mais estreitas, o trânsito mais lento, e o chão passava a ser de paralelepípedo, fazendo o carro balançar levemente a cada metro da subida. As casas surgiam empilhadas nas encostas, pintadas de cores vivas — amarelos quentes, azuis luminosos, verdes já desbotados pelo sol — como se cada fachada fosse parte de um grande quadro espalhado pelo morro.

Agus olhava tudo com atenção quase ritual. Em certo momento, apontou para cima. Em alguns fios de eletricidade, pares de tênis pendiam amarrados pelos cadarços, balançando devagar no vento quente da tarde. Aquilo tinha algo de misterioso, quase como pequenos sinais secretos da cidade.

Mas o que realmente fez Agus se inclinar para fora da janela foi outra coisa.

— ¡Mira! — disse ela, com os olhos brilhando.

Nos galhos de uma árvore à beira da rua, pequenos macacos saltavam de um lado para o outro com uma agilidade impressionante. Eram os famosos saguis, minúsculos, do tamanho de um esquilo grande, com o corpo leve, o rabo comprido e duas pequenas “plumas” de pelos brancos nas orelhas que pareciam brincos naturais. Eles se moviam rápido, curiosos, como se estivessem sempre conspirando entre si.

Um deles segurava uma frutinha vermelha.

— Que fruta é aquela? — perguntou Ricardo, tentando esticar o pescoço para ver melhor.

O motorista sorriu pelo retrovisor.

Acerola, meu amigo. Isso aí é uma bomba de vitamina C.

Ele diminuiu um pouco a velocidade enquanto explicava, quase com orgulho.

— Essa fruta aí é acerola, meu amigo — disse o motorista, olhando pelo retrovisor com um meio sorriso. — Pequena, vermelhinha, bem azedinha também. Aqui no Brasil o pessoal faz muito suco. Dizem que tem mais vitamina C que laranja.

Ele fez uma pequena pausa, como quem puxa uma lembrança antiga.

— No tempo da minha mãe, o povo falava muito dessa fruta. Tinha até uma história curiosa… em alguns países produtores, lá atrás, a acerola chegou a ser tratada quase como segredo de Estado. Diziam que não deixavam ninguém levar muda da planta pra fora, pra proteger a produção industrial de vitamina C.

O motorista deu de ombros, voltando os olhos para a estrada.

— Hoje em dia tem em todo canto

Agus observava os macaquinhos com um encanto quase infantil, como se tivesse encontrado mais um daqueles pequenos portais de magia que ela insistia em enxergar no mundo.

— Este lugar… — murmurou ela — parece ter vida em todos os cantos.

Chegamos na porta do hotel errado por um erro do GPS. Ricardo, tentando ser o “macho alfa” do grupo, resolveu carregar quatro malas de uma vez. Enquanto ele lutava para não deixar as calças caírem — que estavam frouxas de tanto ele pular —, Agus parou para olhar umas pulseiras de um vendedor ambulante. Foi um segundo. Um vulto passou, a mão dele foi certeira no celular dela e o grito ecoou:

— PEGA LADRÃO!

Eu só vi quando Juan disparou. Foi tão rápido que parecia reflexo de atleta — um movimento seco, decidido, como se o corpo dele já soubesse o que fazer antes mesmo da cabeça entender o que estava acontecendo.

O menino corria leve pelas ruas de paralelepípedo, pequeno e ágil, desviando das pessoas com facilidade. Juan vinha logo atrás, ganhando terreno aos poucos. Foi então que um cachorro que estava deitado no meio da rua se assustou com a correria e saltou na direção do garoto, latindo.

O menino se assustou e freou por um segundo, tentando desviar do animal. Foi o tempo que Juan precisava. Ele esticou o braço e agarrou o garoto pelo pulso, segurando firme antes que ele conseguisse voltar a correr.

Tudo aconteceu em duas esquinas, diante dos olhares curiosos de quem passava.

Quando Juan voltou com o telefone na mão, Agus estava em choque, chorando sem conseguir falar direito.

E o pior é que nem foi vacilo. A gente tinha escolhido ficar em Santa Teresa justamente porque um amigo brasileiro do trabalho do Ricardo tinha dito que ali era mais tranquilo que Copacabana. Mesmo assim aconteceu. Foi tudo rápido demais — um segundo a gente estava andando tranquilo, no outro já tinha alguém correndo com o telefone.

Na verdade, eu só fui entender direito o que tinha acontecido depois. Primeiro precisei acalmar Agus, que chorava sem conseguir parar, e agradecer às pessoas que tinham se aproximado para ajudar — todo mundo falando ao mesmo tempo, perguntando se estava tudo bem.

O curioso é que nós quatro somos bem nervosos. Juan costuma ser o mais racional, o que mantém a cabeça no lugar, embora também seja muito sensível. Mas, nessas horas, acontece comigo uma coisa estranha: eu travo. E quando eu travo, de algum jeito consigo agir no automático.

Foi o que aconteceu ali. Mesmo com um choro entalado na garganta, eu consegui abraçar Agus, falar com as pessoas, tentar organizar aquele pequeno caos na calçada.

Por dentro, porém, era outra história. Eu estava frio. Um frio estranho, profundo, que começava na barriga e parecia descer pelos ossos das pernas, como se o corpo inteiro estivesse tentando entender, devagar, o susto que tinha acabado de passar.

— Tá tudo bem, gente… tá tudo bem — eu repetia, mais para organizar o caos dentro da minha própria cabeça do que para convencer os outros.

Poli percebeu que o hotel não era tão longe dali e conseguiu chamar um Uber. Depois de tudo o que tinha acontecido, a gente entrou no carro quase em silêncio, ainda meio abalados. Quando o carro finalmente parou na nossa frente, o nervosismo começou a se dissolver por um motivo inesperado.

A motorista desceu do carro.

— Vitória… mas pode me chamar de Vi — disse ela, com naturalidade.

E foi impossível não reparar. Ela era absurdamente bonita. Alta, pele beijada pelo sol, o tipo de sorriso que parece ter sido treinado para capa de revista, mas sem parecer artificial. O cabelo caía perfeito, como se o vento soubesse exatamente onde tocar. Havia algo curioso nela: ao mesmo tempo mulher e menina, uma leveza juvenil misturada com uma segurança tranquila no olhar. Ela tinha uma presença tipicamente carioca.

Os meninos, que até então estavam falando aquele portunhol sofrido, começaram de repente a soltar um português impecável, cheio de entonação, educação exagerada e palavras escolhidas com cuidado — claramente tentando impressionar.

Enquanto Vi dava algumas voltas pelas ruas estreitas de Santa Teresa procurando o hotel que tínhamos indicado, eles aproveitaram para contar a história do assalto. Cada um falava um pedaço, gesticulando, dramatizando a cena.

Dava para ver a cara do Juan praticamente babando toda vez que ele falava em português e ela entendia perfeitamente.

Enamorar é apaixonar, né? — perguntou ele, com um sorriso que misturava curiosidade e pura tentativa de flerte.

— Porque… eu estoy enamorado — completou, sem o menor pudor.

— Meu Deus, Juan… para de passar vergonha — disse Agus, que já parecia totalmente recuperada do susto, revirando os olhos enquanto ria.

Vi soltou uma gargalhada baixa ao volante, balançando a cabeça.

E, pela primeira vez desde o assalto, o carro inteiro começou a rir de verdade. O clima pesado que tinha se instalado minutos antes parecia ter evaporado. O susto ainda estava ali em algum lugar da memória, mas a conversa leve dentro do carro foi empurrando aquilo para longe.

O mais curioso é que em questão de minutos já parecíamos velhos conhecidos. Entre uma curva e outra pelas ruas de Santa Teresa, a conversa foi deslizando para música, bares, festas, carnaval. Quando percebemos, Vi já estava contando de um bloco em Madureira que aconteceria no fim de semana.

— Vocês têm que ir — disse ela, com aquele entusiasmo carioca que parece convite e promessa ao mesmo tempo.

Juan e Ricardo já estavam completamente animados.

Antes mesmo de chegar ao hotel, já tínhamos combinado tudo: no sábado teria uma festa, e depois o tal bloco em Madureira.

Era impressionante como, no Rio, as coisas mudavam de tom em questão de minutos. O que começou com medo e tensão agora terminava com risadas e planos de carnaval.

De repente, dentro daquele carro parado na ladeira de Santa Teresa, parecia que a cidade tinha decidido nos mostrar outro tipo de surpresa.

— Ih, meu filho… — Vi disse, mascando um chiclete que fazia um barulho seco. — Rio de Janeiro não é Disney, não, hein? Tem que ficar esperto!

Ela tocou o queixo do Juan com intimidade e deu a notícia: — Vocês estão no endereço errado. Esse hotel não é o de vocês. O de vocês é o Santa Teresa Dreams, lá no morro.

Vi colocou a última mala na calçada, bateu a porta do carro com leveza e apoiou o braço no teto por um segundo, olhando para a gente com aquele sorriso fácil.

— Ó… mas fica ligado, hein. Aqui é tranquilo, mas também não pode dar bobeira não — disse ela, naquele tom carioca meio conselho, meio aviso.

Depois pegou o celular.

— Me chama no WhatsApp quando vocês se instalarem. Mais tarde pode ter uma festa boa… e sábado tem um bloco lá em Madureira que vocês vão pirar.

Ela piscou, entrou no carro e desceu a ladeira devagar.

Quando finalmente levantamos os olhos para o casarão em Santa Teresa, no Largo dos Guimarães, o queixo de todo mundo caiu.

O lugar parecia saído de outro tempo.

Santa Teresa nasceu ali no século XVIII, ao redor de um convento carmelita, e ao longo do século XIX muitas famílias passaram a construir casas no alto do morro, atraídas pelo clima mais fresco e pela vista da cidade. Com o passar das décadas, o bairro foi se transformando, recebendo diferentes moradores, histórias e modos de viver.

Foi nesse processo que Santa Teresa acabou se tornando um território muito ligado à vida cultural do Rio. Muitos artistas, músicos, escritores e gente ligada às artes passaram a viver ou circular por ali, atraídos pelo ambiente mais livre, pelas casas antigas e pela atmosfera criativa do bairro.

Por ali já viveram ou passaram nomes como Chacrinha, o apresentador irreverente da televisão brasileira, o artista plástico Hélio Oiticica, uma das grandes figuras da arte contemporânea do país, além de muitos músicos, cineastas e pintores que ajudaram a consolidar a fama boêmia e artística da região.

Hoje, entre ateliês, bares pequenos, galerias improvisadas e casas históricas, Santa Teresa mantém essa mistura rara de memória, criação e vida cotidiana.

O Largo dos Guimarães, bem na nossa frente, parecia concentrar tudo isso: gente conversando nas mesas da rua, música escapando de algum bar, paredes cobertas de grafite e aquela sensação de que ali a cidade respirava em outro ritmo.

E nós, sem planejar direito como, tínhamos acabado de chegar bem no coração desse lugar.

Daniel contou que tinha vindo para o Rio anos antes movido por um sonho antigo: estudar teatro. Ele mencionou uma escola muito conhecida da cidade, ligada ao trabalho do diretor e dramaturgo Antunes Filho, que durante décadas formou atores e recebia gente de vários lugares do Brasil e do mundo para estudar interpretação e pesquisa teatral. Foi esse desejo de mergulhar no teatro que acabou trazendo Daniel para Santa Teresa — e, de certa forma, o prendeu ali.

A casa tinha uma atmosfera curiosa. Tranquila, silenciosa, quase suspensa do resto da cidade. A temperatura parecia sempre perfeita — nem o calor pesado do centro, nem o vento frio das partes mais altas do morro. Em alguns momentos, olhando aquele pátio com o pé de manga antigo, os quadros espalhados pelas paredes e a luz suave entrando pelas janelas. Parecia um outro Rio de Janeiro.

Daniel terminou de nos mostrar tudo com a calma de quem recebe visitas em casa há muitos anos.

— Banho? — perguntou ele, tentando ajudar no nosso portunhol confuso.

Ricardo respondeu rápido:

— No, no… banho é banheiro, né?

Daniel riu.

— É… mais ou menos. Mas os banheiros ficam dentro dos quartos, tá? Fiquem à vontade.

Ele abriu os braços como quem entrega o espaço.

— Qualquer coisa, é só chamar. Boa noite, gente. Até mais. Fiquem em casa.

E foi embora pelo corredor devagar.

Ficamos ali por alguns segundos em silêncio, sentindo aquela paz estranha do lugar, como se o casarão tivesse uma maneira própria de desacelerar quem entrava nele.

Descemos para o pátio para fumar um cigarro debaixo do pé de manga. A noite começava a cair devagar, e o ar ali parecia mais fresco do que nas ruas lá embaixo. Juan acendeu o primeiro cigarro, Ricardo pediu fogo logo depois, e em poucos segundos a fumaça já subia em espirais lentas no meio daquele silêncio tranquilo.

Descemos para o pátio e nos sentamos debaixo do pé de manga. Juan tirou um cigarro do bolso, Ricardo pediu fogo, e em poucos segundos já havia aquela fumaça leve subindo devagar no ar da tarde que virava noite.

A verdade é que ninguém ali fumava de verdade. Fazia tempo que os cigarros apareciam entre nós três só em momentos muito específicos — quando a gente estava muito, mas muito feliz, daquele jeito em que o corpo parece querer explodir de alegria, mas o lugar ou a hora não permitem gritar, correr ou fazer barulho.

O cigarro virava quase um ritual estranho de silêncio.

A gente já tinha conversado sobre isso várias vezes. A ideia era justamente o contrário: que ele aparecesse cada vez menos na nossa história.

E Agus sempre nos ajudava nisso. Não fumava, mas também não julgava. Ela ficava por perto, rindo da nossa teatralidade, como se dissesse sem palavras: vocês não precisam disso para celebrar nada.

Naquela noite ela se encostou no tronco da mangueira, observando a copa da árvore balançando devagar com o vento.

Foi então que vimos Paula.

No telhado do casarão vizinho havia uma figura se movendo contra o último brilho do sol. Por um instante, ninguém entendeu muito bem o que estava olhando. O corpo se movia com leveza, equilibrado contra o céu dourado.

Era Paula, a namorada de Daniel.

Ela treinava ali em cima como se aquilo fosse o palco mais natural do mundo. O corpo girava, os braços se abriam, e a luz do pôr do sol atravessava seus movimentos como se ela estivesse dançando dentro da própria luz.

Nós ficamos parados, em silêncio, hipnotizados, com o cigarro queimando devagar entre os dedos.

Ricardo encontrou uma manga caída no chão do jardim e, sem pensar muito, limpou na camisa e deu uma mordida generosa.

— Cuidado, Ricardo! — eu ri. — Você tá o verdadeiro cão chupando manga hoje!

Ele parou mastigando e franziu a testa.

— Como assim cão chupando manga?

— É uma expressão brasileira — expliquei. — Quando alguém tá todo lambuzado, meio desajeitado, comendo alguma coisa com aquela felicidade meio selvagem… tipo cachorro quando pega uma manga caída.

Ricardo olhou para as mãos pegajosas, o suco escorrendo pelo braço, e começou a rir.

— Gente… eu tô tão feliz — disse ele, olhando para o pátio, para a mangueira, para o céu escuro começando a aparecer entre as folhas. — Acho que a gente devia ir dormir cedo, né? Pra amanhã pegar uma prainha… Ipanema, talvez?

Juan levantou as sobrancelhas.

— Prainha? — disse ele rindo. — Olha pra ele… já tá todo carioca.

Agus, ainda olhando para o telhado onde Paula tinha dançado, respondeu:

— Eu super iria pra Lapa hoje.

Poli suspirou, cruzando os braços como quem tenta trazer um pouco de ordem para aquele entusiasmo todo.

— Não, gente… vamos descansar. A gente acabou de chegar, já aconteceu um monte de coisa hoje. Temos muitos dias pela frente.

As meninas desceram para o Largo para comprar água (desta vez por um preço justo). O plano estava traçado: amanhã seria Parque Lage e Ipanema. Ricardo já estava na calçada, olhando a vista 360º do Rio — o Cristo de um lado, a Baía de Guanabara do outro — e pulando enquanto cantava: “Tetereterete, Gusttavo Lima e você!”. Todos rimos, apesar do cansaço.

À noite, já instalados no casarão, abrimos a garrafa de cachaça de jambu que tínhamos comprado no caminho. Ninguém ali tinha muita experiência com aquilo, mas bastou o primeiro gole para percebermos que não era uma bebida comum.

A boca começou a formigar, depois veio uma vibração estranha na língua, como se pequenos choques atravessassem os lábios. Logo a risada ficou frouxa.

A famosa sensação que todo mundo comenta — o tal “tremor” do jambu — apareceu rápido. A planta usada na infusão, conhecida como jambu ou agrião-do-Pará, tem uma substância chamada espilantol, que ativa os receptores sensoriais da boca. Primeiro vem o formigamento, depois uma leve dormência, quase como uma anestesia suave. A bebida continua sendo cachaça, claro — álcool de cana-de-açúcar — mas com aquele efeito curioso que deixa a língua meio viva demais.

Em poucos minutos todo mundo já estava alegre demais.

Sentados no pátio, perto do pé de manga, começamos a conversar sobre como aquela mistura improvável de pessoas tinha se formado.

Juan e Poli foram os primeiros a se conhecer. Eles se encontraram em um curso de português, desses para estrangeiros curiosos com o Brasil. Um tempo depois resolveram viajar juntos e acabaram conhecendo Agus em Búzios, numa dessas coincidências que parecem pequenas na hora, mas que mudam tudo.

Eu entrei na história bem depois. Conheci Juan num trabalho temporário, numa época em que ele estava meio desesperado para juntar dinheiro. Foi assim que nossas histórias começaram a se cruzar.

Com o tempo, vocês vão entendendo melhor cada pedaço disso tudo. Mas, olhando ali para nós quatro naquele pátio, era bonito perceber o caminho improvável que tinha nos trazido até ali.

Eu sempre fui um pouco tímido, meio fechado às vezes. Carrego uma certa insegurança, mas ao mesmo tempo tenho coragem de me jogar nas relações quando sinto que vale a pena. Tem uma coisa que eu não permito de jeito nenhum: que me tirem a alegria de viver.

Agus é uma das pessoas mais verdadeiras que já conheci. Justa, educada, consciente, leal. Ela tem uma forma muito rara de respeitar o espaço do outro. Ao mesmo tempo, é cheia de vida — dessas pessoas que parecem carregar sol dentro de si.

Juan… Juan é um fofo. Faz algum tempo que ele tenta aprender a ser mais generoso consigo mesmo, a não se cobrar tanto. Mas também é ele quem costuma ter as ideias que acabam movendo todo mundo. Foi dele, por exemplo, a proposta de que todos os anos a gente se reunisse para vir ao Rio de Janeiro.

Poli, por outro lado, é quem mantém os pés no chão. Quando todo mundo começa a viajar demais nas ideias, é ela quem lembra que existe relógio, dinheiro, logística, realidade.

A conversa ia e vinha, atravessada pelas risadas fáceis que o jambu provocava.

Quando vimos, já eram quase três da manhã.

Foi então que, de repente, as luzes do casarão começaram a piscar. Primeiro devagar, depois freneticamente.

O vento entrou pelas janelas coloniais, fazendo a madeira antiga vibrar.

E, com um estalo seco, tudo ficou completamente escuro.

— Juan? Poli? — a voz de Agus tremeu no escuro.

Ninguém respondeu. Apenas o som de um tamanco de madeira batendo no corredor vazio.


CAPÍTULO 02

Na segunda noite no Rio, quase ninguém conseguiu dormir no antigo casarão. A casa era grande e velha, com teto alto, janelas enormes e madeira rangendo a cada rajada de vento. As venezianas batiam sem parar, e o som das portas ecoava pelos corredores escuros.

No telhado, gatos corriam de um lado para o outro, brigando e derrubando coisas. A chuva típica do Rio caía pesada sobre as telhas antigas, enquanto relâmpagos iluminavam o quarto por alguns segundos. Logo depois vinham os trovões, tão fortes que pareciam explodir dentro da própria casa.

E havia mosquitos — muitos. Zumbiam perto dos ouvidos, pousavam nos braços, nas pernas. O ventilador antigo girava devagar, espalhando o ar quente, mas não conseguia espantá-los.

Assustadas com o barulho da tempestade, as meninas acabaram indo dormir no quarto de Ricardo. No começo tentaram ficar em silêncio, mas logo começaram a rir de tudo: dos gatos no telhado, dos mosquitos, do vento batendo nas janelas. Entre uma piada e outra, a madrugada foi passando.

Ricardo estava deitado olhando para o teto, sorrindo. Mesmo sem dormir direito, estava feliz por estar no Rio de Janeiro. Já tinha postado vários stories para provocar inveja nos colegas do escritório, onde a rotina de trabalho consumia quase toda a sua vida.

Mas, no meio das risadas, ele ainda pensava em uma coisa:

— A praia de amanhã não vai rolar…

A tempestade atravessou a madrugada inteira.

Quem já veio ao Rio sabe: o Rio sempre muda os planos.

Assim que amanheceu, o céu estava limpo.

Eles pegaram o bondinho em Santa Teresa logo cedo.

O bonde amarelo, antigo, parecia ter saído de outro tempo. As laterais eram abertas, com bancos de madeira e barras de ferro onde os passageiros se seguravam. Quando começou a subir, o rangido das rodas sobre os trilhos misturava-se ao som da cidade acordando.

De repente, o bonde entrou sobre os Arcos da Lapa.

Lá embaixo, a avenida parecia pequena. Os carros passavam como brinquedos e as pessoas caminhavam apressadas entre os bares ainda fechados da noite anterior. De cima, dava para ver a geometria perfeita do antigo aqueduto branco cortando o bairro e conectando o centro às ladeiras de Santa Teresa.

A vista se abria em um panorama inesperado do Rio antigo: prédios históricos, fachadas desgastadas pelo tempo, igrejas escondidas entre ruas estreitas e, ao fundo, morros cobertos de verde.

O bonde seguia devagar.

Por ser aberto nas laterais, a brisa da manhã entrava livremente, trazendo o cheiro de café vindo das casas e padarias do bairro. À medida que subiam, as ruas ficavam mais estreitas e inclinadas, revelando ateliês, murais coloridos, pequenos bares e casas coloniais com janelas altas e portas de madeira.

Poli se inclinava para fora, tentando filmar tudo ao mesmo tempo.

— Meu Deus… isso é lindo — dizia, enquanto o bonde avançava lentamente pelas curvas das ladeiras.

Santa Teresa parecia um pequeno mundo suspenso acima da cidade, onde arte, história e vida cotidiana se misturavam em cada esquina.

Poli estava animadíssima. Tirava fotos sem parar, gravava vídeos para mandar aos amigos de Santiago.

— Olha isso! — ela dizia — Parece filme!

Depois do passeio, desceram para o centro da cidade para visitar a Catedral Metropolitana.

A construção impressionava.

Não parecia uma igreja tradicional. De longe, a construção se impunha como uma enorme pirâmide de concreto, austera e geométrica, inspirada nas antigas pirâmides mesoamericanas. Do lado de fora, a estrutura parecia quase brutalista: linhas duras, concreto cru, poucos detalhes. Para quem passava pela rua, poderia até parecer fria.

Mas bastava atravessar a porta para perceber que o interior guardava outra realidade.

Dentro, a luz tomava conta do espaço. Quatro vitrais gigantes subiam pelas paredes inclinadas da pirâmide, formando colunas verticais de cores intensas — vermelho, azul, verde e dourado. A luz do sol atravessava o vidro e se espalhava pelo chão e pelas paredes como um grande caleidoscópio vivo. As cores mudavam lentamente conforme o sol se movia no céu, criando uma atmosfera quase mística, silenciosa e etérea.

No centro do enorme vazio da nave, uma cruz metálica estava suspensa no ar. Presa por cabos quase invisíveis, ela parecia flutuar sob a cúpula, como se estivesse parada entre o céu e a terra.

Lá embaixo, no subsolo, ficava o Museu de Arte Sacra, guardando imagens antigas, esculturas e relíquias que contrastavam com a arquitetura moderna da catedral. Mas ali em cima, no grande espaço iluminado, o que mais impressionava era o silêncio — um silêncio cheio de cor e de luz, que fazia qualquer pessoa diminuir o passo e falar mais baixo, quase sem perceber.

Augus sentou-se em um dos bancos de madeira. Por alguns instantes ficou imóvel, olhando para a imagem de Cristo como quem tenta encontrar alguma coisa dentro do próprio olhar. O rosto estava sereno, mas sério, concentrado.

Depois fechou os olhos.

As mãos repousaram juntas sobre o colo, e ali, em silêncio, ela fez um pedido.

Quando abriu os olhos novamente, eles brilhavam mais do que antes. Havia algo diferente em seu rosto — uma mistura de reverência, calma e decisão que ninguém soube explicar direito.

Ninguém disse nada.
Os outros apenas respeitaram aquele momento.

Augus então se levantou devagar.

E, por um instante, parecia outra pessoa.

Ali a cidade tinha outra textura. As paredes estavam cobertas por grafites coloridos e pela pixação que subia verticalmente pelos prédios antigos como uma assinatura inquieta da cidade. Havia cartazes rasgados, portas de bares ainda fechadas da noite anterior, garrafas esquecidas nas calçadas e um cheiro misturado de cerveja, café e asfalto molhado.

Era uma estética de boemia urbana — meio caótica, meio viva — onde arte, sujeira, música e história pareciam ocupar o mesmo espaço sem pedir licença.

Um cachorro vira-lata apareceu do nada e começou a segui-los.

Andava entre eles com calma, como se já fizesse parte do grupo. Às vezes ia um pouco à frente, depois voltava, olhando para trás para ver se todos ainda estavam ali. O pelo era curto, manchado de marrom e preto, e as orelhas ficavam sempre atentas ao barulho da rua.

Caminhava leve, atravessando o movimento da Lapa com naturalidade, desviando das pessoas e dos carros estacionados.

Em certos momentos parecia quase um guardião improvisado, acompanhando o grupo pelas calçadas como se conhecesse bem aquele território.

— Olha, ele tá seguindo a gente! — disse Poli.

— Esse é o Pingo — respondeu um homem encostado em um poste.

Era João, um pinguço conhecido da região.

Um homem apareceu na calçada e se aproximou deles com passos rápidos. Falava alto, insistente, pedindo dinheiro enquanto caminhava ao lado do grupo.

Ricardo lembrou imediatamente do conselho de um amigo que conhecia bem a região: não parar, não responder, apenas seguir andando.

Foi o que fizeram.

Continuaram caminhando no mesmo ritmo, olhando para frente, enquanto o homem ainda dizia alguma coisa atrás deles.

Depois de alguns segundos, ele desistiu.

— Ele anda por aqui procurando trago, cigarro e às vezes um pastel — murmurou alguém do grupo, já retomando a caminhada pela rua movimentada.

A ideia de caminhar pela Lapa tinha sido de Juan.

Juan adorava caminhar.

— Tem que recorrer a cidade — ele dizia.

Poli caminhava um pouco tensa no meio de tudo aquilo. De vez em quando parava, olhava o mapa no celular e tentava confirmar o caminho.

— Acho que é por aqui… — dizia, olhando novamente para a tela enquanto o fluxo de pessoas passava ao redor deles.

— Esse prédio aqui é histórico… e aquele ali também.

Juan riu.

— Vocês têm que vir aqui de noite. A Lapa de noite é outra coisa.

— Samba, funk, pagode… gente do mundo inteiro.

Enquanto falava, atravessavam a rua.

Mas Juan parou de repente.

Ficou em silêncio.

No meio da caminhada, o olhar dele se arrastou lentamente até o final da rua.

Ali, junto a um pedaço de calçada marcado por grafites e pixações antigas, estava uma imagem de Zé Pelintra.

A figura chamava atenção pela elegância. O terno branco parecia sempre impecável, mesmo naquele pedaço de cidade cheio de poeira e movimento. Na cabeça, um chapéu-panamá levemente inclinado. A gravata vermelha cortava o branco do traje como um detalhe preciso.

A postura era tranquila, quase malandra. Uma das mãos parecia repousar no bolso, enquanto a outra segurava uma bengala fina, como quem observa a rua com calma, conhecendo bem o ritmo da cidade.

Aos pés da imagem havia sinais claros de devoção. Velas queimadas, algumas ainda acesas, deixavam manchas de cera escorrida sobre o concreto. Havia cigarros apoiados na base da estátua, um copo de cachaça pela metade e algumas flores já um pouco murchas.

Pessoas passavam, algumas apenas olhando rápido, outras tocando a base da imagem antes de seguir caminho.

Juan sentiu um arrepio subir pelas costas.

Agus percebeu.

— Vocês sabem quem é ele?

Ricardo e Poli negaram com a cabeça.

Agus começou a explicar.

— Zé Pelintra é considerado o patrono da Lapa. Representa a malandragem carioca e a resistência das religiões de matriz africana.

— Dizem que ele abre caminhos…

Ricardo riu.

— Caminhos?

— Financeiros, profissionais… — continuou Agus — também é associado à cura e proteção. Mas o poder dele não vem da força. Vem da inteligência. Do jogo de cintura.

— Tipo um estrategista espiritual — disse Juan.

Agus assentiu.

— Ele dobra inimigos sem precisar de violência.

De repente, uma voz suave surgiu atrás deles.

— Vocês gostaram da estátua?

Ricardo pulou de susto, quase tropeçando no próprio passo, como se tivesse sido puxado de volta à rua de uma vez só.

Era uma moça.

— Meu nome é Iris.

Ela sorriu.

— Sou baiana, mas moro aqui no Rio.

— Achei lindo ver vocês olhando e conversando sobre ele.

Augus perguntou:

— Então ele é tipo um santo?

Iris respondeu:

— Para muita gente, sim. Mas oficialmente ele é chamado de entidade.

Ela olhou o relógio.

— Eu ia tomar uma cerveja antes de ir pra escadaria. Vocês querem vir? Comer um pastel?

Ricardo respondeu na hora:

— Uau. Vamos.

O bar estava lotado, como costuma ficar nos dias de Carnaval. Gente espremida no balcão, copos tilintando, música alta saindo das caixas e vozes misturadas em uma conversa contínua. O ar cheirava a cerveja, suor e fritura, enquanto pessoas entravam e saíam sem parar, trazendo para dentro do bar a mesma energia caótica da rua.

Gente passando o tempo todo.

Moradores de rua, turistas, estudantes, músicos.

Som alto.

— E aí — perguntou Iris — tão gostando do Rio?

Ricardo respondeu com olhos brilhando.

— A gente chegou ontem… mas eu já tô amando.

A conversa começou a fluir.

Ricardo queria filmar tudo. Pegava o celular a todo momento, procurando ângulos, gravando pequenos vídeos, tentando registrar cada detalhe como se tudo fosse novidade absoluta.

Mas, ao mesmo tempo, parecia inquieto. No meio das gravações, começava a fazer perguntas.

Queria saber como funcionavam as coisas ali, quais eram as regras, o que podia ou não podia fazer.

— Pode filmar aqui?
— Tem algum lugar que é melhor não entrar?
— Como as pessoas vivem aqui?

Ricardo perguntava sobre a Rocinha como se estivesse tentando entender outro planeta.

Iris riu.

— A Rocinha é um mundo mesmo. Tem tudo lá dentro.

Depois decidiram subir a Escadaria Selarón.

A fila era enorme.

Ricardo era um pouco ansioso, daqueles que parecem sempre estar um passo à frente do próprio corpo. Afobado, falava rápido, perguntava tudo ao mesmo tempo e raramente conseguia esperar com calma. Sem perceber — ou talvez sem medir direito — acabou avançando alguns passos e começou a furar a fila.

Uma japonesa reclamou.

— Ei!

Ricardo respondeu debochado:

— Não escuto… não escuto…

Tiveram que puxá-lo de volta. A cerveja que Ricardo tinha bebido já começava a fazer efeito: ele falava mais alto do que o normal, ria à toa e parecia ainda mais apressado do que de costume.

Mesmo assim todos conseguiram tirar fotos.

Mais tarde voltaram para Santa Teresa.

No caminho, Juan estava desesperado.

— Eu preciso ir ao banheiro.

Augus sugeriu que ele fosse na rua.

Juan ficou indignado.

— Jamais!

Ricardo já estava na quarta cerveja e o efeito começava a aparecer de um jeito quase previsível. Ele ria sozinho, às vezes antes mesmo de terminar o próprio pensamento. Era o tipo de pessoa que parecia carregar um sorriso permanente no rosto — não por educação, mas por impulso mesmo. Qualquer detalhe virava motivo para piada: uma placa torta na parede, um sotaque diferente, alguém tropeçando na calçada.

Falava alto, gesticulava com a garrafa na mão e soltava comentários rápidos, como se estivesse narrando a cidade enquanto caminhava. Não era exatamente descontrole, mas uma alegria meio exagerada, dessas que aparecem quando o álcool começa a soltar as amarras do corpo.

Ricardo tinha esse jeito: sempre pronto para rir, provocar, brincar. Em qualquer situação — séria ou banal — ele acabava encontrando algum motivo para fazer graça

Quando chegaram ao mirante de Santa Teresa, pararam por alguns instantes. Dali de cima a cidade se abria inteira: os telhados antigos do bairro descendo pelas ladeiras, o centro espalhado ao fundo e, mais distante, o contorno das montanhas recortando o céu. O vento vinha leve, trazendo o barulho distante da cidade misturado ao som de algum samba que escapava de uma casa próxima.

Ricardo apoiou os braços no parapeito de pedra e ficou olhando a paisagem com um sorriso meio bêbado, ainda segurando a garrafa de cerveja.

— Sabe de uma coisa? — disse de repente. — Eu vou arrumar uma namorada brasileira.

Os outros olharam para ele.

— Pra quê? — perguntou Poli, já rindo.

Ricardo respondeu sem hesitar:

— Pra pedir ela em casamento lá no Cristo Redentor.

Por um segundo houve silêncio. Depois todos caíram na gargalhada.

— O cara já tá planejando a vida inteira em dois dias de Rio — disse Juan, balançando a cabeça.

Ricardo deu de ombros, rindo também, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo enquanto continuava olhando a cidade lá embaixo.

A vista do Rio era absurda.

Uma beleza intensa.

Quase violenta.

Quando chegaram em casa, descobriram algo curioso.

Iris era estilista de carnaval e já tinha alguma notoriedade nas redes sociais.

Não tiveram muito tempo para pensar. O som do samba, vindo do bloco que passava do lado de fora, chamava o corpo para o movimento, cada vez mais.

A cozinha era compartilhada e ainda estava cheia da bagunça do dia anterior. Sobre a mesa, Daniel tinha deixado um aviso enorme pedindo para que todos limpassem depois de usar.
Ricardo leu o bilhete e começou a rir sem parar.
— Quem se preocupa com sujeira no carnaval?

Eles estavam no pátio da casa onde estavam hospedados, debaixo de um grande pé de manga. A sombra das folhas protegia um pouco do calor, enquanto a água da mangueira corria pelo chão e respingava nas pernas de todo mundo.

De repente, uma nuvem passou e a sombra cobriu o sol. O pátio ficou mais escuro por um instante, e o barulho do bloco que passava na rua invadiu o lugar com ainda mais força — surdos, tamborins e gente cantando.

Todos olharam para cima quase ao mesmo tempo.

Então a nuvem se abriu e o sol voltou de uma vez, forte, atravessando as folhas do pé de manga como um holofote.

Eles se entreolharam, ainda molhados da água da mangueira, com aquela expressão meio perdida, meio divertida — cara de quem acabou de acordar para o dia.

— Ipanema.

Quinze minutos depois, já estavam dentro de um Uber a caminho da praia.

Ricardo foi no banco da frente. No começo ainda falava animado com o motorista, apontando coisas pela janela como se estivesse apresentando a cidade. Mas, poucos minutos depois, ficou quieto.

O calor, o balanço do carro e as quatro cervejas da manhã começaram a cobrar o preço.

Ele levou a mão à boca, respirou fundo e tentou se controlar.

Não deu tempo.

Ricardo se inclinou para frente e vomitou todo o álcool ali mesmo, em cima do Uber.